A SEIA
Ao fundo
habito o ar, o vazio que me acompanha faz-me viajar.
Acompanhado pelo silêncio viajo
deitado num ferro mole, rijo como o corpo que visto. A luz aquece-me quando
fecho os olhos, que já não consigo abrir, recordo o ontem porque o amanhã não
consigo sonhar.
A pequena sombra que por mim
passou fez nevar o meu coração, congelado aquece a gaveta onde me encontro
arquivado. Qual folha de papel num ficheiro esquecido, aguardo ser lembrado.
Danço deitado numa cama prateada, tipo bandeja, enquanto espero ser servido à
mesa do Rei, como prato principal.
A incógnita incerteza de quem sou
cresce na dúvida de quem virei a ser, algo mais, que a etiqueta que tenho
pendurada no dedo grande do meu pé esquerdo; espero!
As horas que aqui passei são
minutos inexistentes, o tempo para mim não passa…
Do outro
lado do cofre onde me encontro guardado, a azafama, estática, do médico legista
de serviço, acompanhada das intermitentes lâmpadas de uma pequena árvore de
Natal, fazem dançar um barroco boneco, de péssimo mau gosto, que se encontra do
outro lado do hospital, junto a portaria. A música, mono fónica, que o pequeno e
barbudo boneco transmite, faz me tremer a pele seca e congelada, aquecendo com
um calor acolhedor a ferrugem da inoxidável cama onde hoje viajo.
Hoje, hoje
todos de mim se lembram, no pedaço de peru que levam à boca ou então na
suculenta fatia de Bolo-rei que agora mastigam. Existo dentro de cada prenda,
sou a fita dourada ou papel rasgado, sou o Porto, o cálice o sonho e azevía,
sou a filhó de ferrugem, deitada na travessa de inox. Sou apenas a etiqueta que
aguarda saber o seu nome, aguarda ser lembrada neste dia em que não foi
esquecida.
A tinta que
em meu corpo desliza pertence a uma pena ressequida, o nome que esta escreve
não se vê, não existe. Tento me levantar para ler os riscos invisíveis que
escreveram, tento acordar, tento me lembrar antes de me esquecer. Tento que te
lembres de quem sou, tu que não me vieste procurar e não me conseguiste
descobrir.
A
permanência abstracta de meu pesado corpo, apenas coberto por um vestido negro,
sem mangas nem gola, permite-me passear em redor de tudo o que me rodeia;
nada.
A claridade
aqui presente ofusca-me os sentidos, mas mantém-me cego. Deixo-me sentir o frio
que evita a minha putrefacção. A palha que em mim arde iguala o sangue seco que
em mim deixou de correr. Como um espantalho moribundo, coberto por uma roupa
velha e gasta pela vida, tento de novo levantar-me, abrir os braços e esperar o
abraço dos corvos. Ao Habitar esta seara seca e enegrecida pela morte do Sol,
acolho todos os pássaros que aqui se alimentam, servindo de poleiro. Planície
com flores de pedra onde o chão se alimenta, os meus pés aquece e meu corpo
sustenta. Esta vida de espantalho enriquece-me, enquanto durmo o sono gélido de
uma bela adormecida, que nunca vai acordar.
A SALA
Havia na sala ao lado do meu
compartimento um eco metálico, provocado pelo silencioso sopro do vento que
sorrateiramente entrou. Ao dançar esgueira-se por uma pequena fresta que
esquecida adormece numa janela por fechar. Um sussurrar distante faz tilintar,
numa suave trepidação, alguns objectos metálicos. Num dos cantos, mergulham de forma
ritmada algumas gotículas que ao cair no chão estalam e juntam-se ao eco
metálico do vento. Na extremidade da sala um coro de cortinas plásticas dança
harmoniosamente, acompanhando o tenor, mudo, que sopra ao mesmo tempo que
marcam o compasso com um estalar seco de suas bainhas.
Continua......
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