domingo, 23 de maio de 2010

Família

Por volta da hora de jantar, uma janela fechada no chão não pára de voar.

O ladrar do cão anão, faz-me vomitar. A televisão fala com o sofá, enquanto este lê o sensacionalismo do jornal, que nele se encontra deitado.

No ar o cheiro do guisado torrado, queimado de tanto ouvir a rádio. Na novela da cozinha, a mesa canta sozinha, enquanto o gato de pedra pia. Lava o chão podre, ao alimentar-se rasga a capa de papel. Alimenta-se a parede que tem por baixo dos pés.

A Lua tosse de dentro do aquário que tenho na varanda.

O cão voltou, a janela também.

Fecho o telhado e deixo o céu lá fora a uivar. No meio do chão deito o guisado, que reclama com o jornal que o deixou queimar.

A televisão continua a falar com o sofá, sem que este lhe responda. Levanta-se da sala e vai ao micro ondas buscar uma cola fresca. A lata ladra por a agarrarem, bufa depois para no fim se mijar.

Que bela harmonia, no mundo do fantástico. Sós e apenas sós, os pedaços de vida que nos rodeiam, são apenas ………

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Seres banais...

Seres banais,

Todos,

Vivem carnavais.

Seres surdos, mudos,

Anormais,

Longe dos mundos,

De posturas abismais.

São suas,

Não o sendo

São uma e não duas,

Mas nada vão parecendo.

Molde desfigura a realidade,

Torna- se podre,

Sua maior lealdade,

Leal à sua forma,

Desleal a si mesmo.

Para fora nada mostra,

Mostra apenas

A figura morta,

Da deusa Atenas.

sábado, 1 de maio de 2010

Doença perfeita; Sã!





















No monte mole, tudo escorre enquanto dorme.

Anémonas de algodão correm atrás de seus viscosos filhos; dementes!

Durante a luz, quando o sol derrete, a esponja ausente canta.

Todos ouvem, todos acompanham o seu cantar.

Quando a luz acaba o monte acorda; pára de escorrer.

O calor do fim da luz solidifica os, gelatinosos, corpos dos habitantes do monte mole.

Durante esta nova claridade tudo brilha; cintila!

Existe!

No monte mole de papel tudo é diferente; distante!

Para sempre!

O rio de lama, queimada, alimenta toda a manada; pastor! Enquanto pequenos gnomos de esferovite brincam nas suas margens. Leito!

Perfeito?!

Na monda, ceifeiras cortam a cabeça à morte; sorte! Pedras, bebés, saltitam na mente nómada de um viajante; louco!

No monte o sol volta a derreter e durante a luz;

Tudo escorre enquanto dorme! Cintila! Existe! Distante! Para sempre! Pastor! Leito! Perfeito! Louco!?

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Copo corpo.



Gostava de viajar de uma garrafa para outra, dentro de pequenas gotas rubras e ficar bêbado com a surdez de teus olhos.


Gostava de flutuar no cheiro a vinho de cada palavra que não ouvi, enquanto cantavas, muda, para mim.


Gostava de beber o aroma líquido da tua essência, pousar no copo que me serviste e perceber o que sentes.


domingo, 18 de abril de 2010

À hora que não quer parar

Cada hora parada silencia a espera que não sinto,

Perversa percorre a essência de cada minuto, em que me acompanha.

Tempo, exíguo ser de teu existir, desaparece crescendo com a tua ausência.

Onde estás ponteiro de meu palpitar?

A que hora vai chegar?

À hora que não quer parar…

terça-feira, 13 de abril de 2010

Líquido seco!


Liquida. Água negra esconde a incerteza de ti.

Líquido sou eu. Tento evaporar a minha essência, para o canto onde a luz dorme.

Liquido é o sol que nos consome.

Pó.

Pó líquido, seco de tanto correr a sombra.

Pó, somos nós quando nos olhamos, sóbrios e sombrios. Sentimos sede de pó; líquido.

Líquida, água tua na minha mão como tu no meu chão, de pó… líquido…


segunda-feira, 12 de abril de 2010

…

Tu nada mais…


Nos olhos brilhantes, como a luz vermelha da tua mente, pensas chorar o pó da tua morte...

As lágrimas, frias, que deitas fora. São braços de crianças que por ti chamam.

És tu e os teus medos, dentro de pequenos frascos de vidro.

São as tuas lágrimas…

És tu, nada mais.

domingo, 11 de abril de 2010

Seres húmidos em Terra; seca!





Seres húmidos em Terra; seca!



De volta à Terra; sito seco e árido; De volta!


Acabado de aqui cair, quase me afogo em tanto líquido; seco! À minha volta seres moles olham para mim, tanta humidade em cada um.


Não consigo levantar-me, o chão rijo que me ampara não o permite. À minha volta os seres multiplicam-se, moles, húmidos, prestes a explodir e a derramar toda a humidade que trazem consigo; viscosa; peganhenta…


De volta à Terra, árida, vazia; sugada por seres que a beberam, seres húmidos gordos que me olham; multiplicam-se…


Depois de aqui cair olho para mim, enquanto humedeço o chão de terra onde cai.


Sinto me esvaziar, dou de beber à Terra seca, que me bebe. Liquido avermelhado, espesso e gelatinoso.


A dor, que dor!


Quase vazio olho o Sol, quente, que faz derreter a multidão de seres, húmidos gordurosos…! Gotas forma-se na sua pela, não em seus olhos; secos! Gotas atrás de gotas chovem à minha volta. Dão de beber à Terra onde cai. Onde me tornei seco, onde toda esta multidão de seres húmidos se tornara seca. Onde cada um destes seres, húmidos será rodeado por uma outra multidão de seres húmidos e se tornara seca; e se tornara terra; esta Terra.