quinta-feira, 7 de março de 2013

Nannylandia

Ao fundo uma gota fechada num jarro, canta para todos ouvirem.

Longo dia. Longo o caminho do Sol, que escondido, tenta saltar para o outro lado. Na inconstância de sua luz, o seu brilhar reflecte a sua ausência.
Em pequenos momentos de escuridão, nasce o Sol da inexistência no Planeta da minha imaginação. Pequenos dias de existência incerta onde seres imortais desaparecem, num piscar de olhos, dando lugar a outros.
Mundos à parte, criados por tudo o que a luz descobre diante de nossos olhos, Mundos que nascem quando estes se fecham, nem que seja por segundos.
Longos dias que duram instantes, presos àquilo que queremos deles.


Na frequência enganadora de um raio de luz, reflectido numa lágrima, ilumina-se o Mundo do lado de lá do olho. Cidade imaginária repleta de uma acolhedora luz dourada. Fim do dia, enquanto a manhã me acorda. 



Na melancolia de uma rara inexistência, desperta a dúvida em seu reflexo; incorpóreo, irreal. Após um crepúsculo repetido ciclicamente, desperta em si a estranheza por tal figura. Apesar de sua, esta figura não lhe beija a pele ao invés tenta rasga-la.
Do outro lado da luz vejo que a sua forma não contorna o seu céu, cria sim uma aura de pequenas bolhas que parecem cantar.
Chora…
Chora por dentro em lágrimas de plástico fundido, enrubescido, incandescente.
Lágrimas que procuram um outro molde para o seu sofrimento.
Lágrimas suas e de outro…

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Silêncio ; será uma passagem?!


Silêncio, nada se ouve , nada se move , nada se ouve mover.

Escuro, nada se vê, nada se sente, nada existe. Será o fim?!

Não está frio, mas também não está calor, nada nos rodeia.

Um espaço enorme que parece pequeno.

Sinto-me preso a algo que não existe.

Sinto-me mover como se tivesse a ser puxado, começo a ver uma luz à minha frente, parece uma porta que se abre para uma sala com luzes roxas.

O silêncio é substituído por um borbulhar de vozes, murmúrios.

Quanto mais perto da porta  estou, mais se nota um estranho cheiro a flores, mas ao entrar nada mais vejo.

Sinto apenas frio.

 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Tu nada mais…













 
Tu nada mais…

 
Nos olhos brilhantes, como a luz vermelha, da tua mente pensas chorar o pó da tua morte...

As lágrimas, frias, que deitas fora. São braços de crianças que por ti chamam.

És tu e os teus medos, dentro de pequenos frascos de vidro.


São as tuas lágrimas…

És tu, nada mais.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Vestido de nada


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Vestido de nada; Nu!

Trago comigo o frio, que me cobre.

Casaco do mundo,

Vestido de uma moda, sempre actual; Nu!

Caído da seiva, cansado do suor.

Visto a dor... de teu chorar.

Sem dó, sem querer.

Ando para ti, sem sair de mim.

Sinto na pele o teu beijo...

Frio...

Nu.

Vestido pelo mundo.

Só...pesso-te,
 
Morte...

Agasalha-me agora,

Já não te consigo sentir.

De nada vestido; Nu!

Sempre Nu!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Voz…


Voz…

 

Ouço ao longe.

Ouço ao longe uma voz que me faz cair.

Chora por mim.

Não...

Não vejo o céu; anjos?!

Ouço chorar junto à terra; chão!

Morte tranquila de uma lágrima...

Agora lama.

Voz, choro.

Agora tu ao longe; lágrima...

Agora eu, ouço-te...

Voz.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O Sol morreu…


O Sol morreu…também eu!

 

O Sol fugiu.

O Sol fugiu, o sangue dos anjos tinge o céu e a água.

Fica tudo vermelho, turvo, quase negro.

O Sol morreu, a noite veste agora um luto intenso.

A lua não aparece, deprimida com a morte de seu amado.

Neste enorme velório, a celebração é feita com pequenas luzes, intermitentes, que separam o céu do rio.

Velas acompanhadas de rezas e choros.

O Sol morreu...

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A MINHA NOITE DE NATAL


  

A SEIA
 
            Ao fundo habito o ar, o vazio que me acompanha faz-me viajar.

 

Acompanhado pelo silêncio viajo deitado num ferro mole, rijo como o corpo que visto. A luz aquece-me quando fecho os olhos, que já não consigo abrir, recordo o ontem porque o amanhã não consigo sonhar.

A pequena sombra que por mim passou fez nevar o meu coração, congelado aquece a gaveta onde me encontro arquivado. Qual folha de papel num ficheiro esquecido, aguardo ser lembrado. Danço deitado numa cama prateada, tipo bandeja, enquanto espero ser servido à mesa do Rei, como prato principal.

A incógnita incerteza de quem sou cresce na dúvida de quem virei a ser, algo mais, que a etiqueta que tenho pendurada no dedo grande do meu pé esquerdo; espero! 

As horas que aqui passei são minutos inexistentes, o tempo para mim não passa…

            Do outro lado do cofre onde me encontro guardado, a azafama, estática, do médico legista de serviço, acompanhada das intermitentes lâmpadas de uma pequena árvore de Natal, fazem dançar um barroco boneco, de péssimo mau gosto, que se encontra do outro lado do hospital, junto a portaria. A música, mono fónica, que o pequeno e barbudo boneco transmite, faz me tremer a pele seca e congelada, aquecendo com um calor acolhedor a ferrugem da inoxidável cama onde hoje viajo.

            Hoje, hoje todos de mim se lembram, no pedaço de peru que levam à boca ou então na suculenta fatia de Bolo-rei que agora mastigam. Existo dentro de cada prenda, sou a fita dourada ou papel rasgado, sou o Porto, o cálice o sonho e azevía, sou a filhó de ferrugem, deitada na travessa de inox. Sou apenas a etiqueta que aguarda saber o seu nome, aguarda ser lembrada neste dia em que não foi esquecida.

            A tinta que em meu corpo desliza pertence a uma pena ressequida, o nome que esta escreve não se vê, não existe. Tento me levantar para ler os riscos invisíveis que escreveram, tento acordar, tento me lembrar antes de me esquecer. Tento que te lembres de quem sou, tu que não me vieste procurar e não me conseguiste descobrir.

            A permanência abstracta de meu pesado corpo, apenas coberto por um vestido negro, sem mangas nem gola, permite-me passear em redor de tudo o que me rodeia; nada. 

            A claridade aqui presente ofusca-me os sentidos, mas mantém-me cego. Deixo-me sentir o frio que evita a minha putrefacção. A palha que em mim arde iguala o sangue seco que em mim deixou de correr. Como um espantalho moribundo, coberto por uma roupa velha e gasta pela vida, tento de novo levantar-me, abrir os braços e esperar o abraço dos corvos. Ao Habitar esta seara seca e enegrecida pela morte do Sol, acolho todos os pássaros que aqui se alimentam, servindo de poleiro. Planície com flores de pedra onde o chão se alimenta, os meus pés aquece e meu corpo sustenta. Esta vida de espantalho enriquece-me, enquanto durmo o sono gélido de uma bela adormecida, que nunca vai acordar.

 

A SALA          

            Havia na sala ao lado do meu compartimento um eco metálico, provocado pelo silencioso sopro do vento que sorrateiramente entrou. Ao dançar esgueira-se por uma pequena fresta que esquecida adormece numa janela por fechar. Um sussurrar distante faz tilintar, numa suave trepidação, alguns objectos metálicos. Num dos cantos, mergulham de forma ritmada algumas gotículas que ao cair no chão estalam e juntam-se ao eco metálico do vento. Na extremidade da sala um coro de cortinas plásticas dança harmoniosamente, acompanhando o tenor, mudo, que sopra ao mesmo tempo que marcam o compasso com um estalar seco de suas bainhas.

Continua......