quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O teu olhar


O teu olhar

 
Ao sentir a tua enigmática presença através do teu misterioso olhar, sinto-me uma presa faminta do mais reconfortante dos alimentos…
Profundos e apaixonantes como a noite, os teus olhos levam-me a viajar num mar de desejo.
Sem porto para atracar sinto-me à deriva no teu olhar e entre ondas de suspiro tento fugir para a gruta de meus sonhos, fechando os olhos. Mesmo na íntima escuridão de meu ser, vejo o teu olhar e nele acabo por me perder.

Que demónio vejo eu


O silêncio do ar ,
Que me faz pensar .
O silêncio do ser,
Que me faz sentir.
O silêncio da água,
Que me faz olhar.

Que demónio vejo eu
À beira rio?
Quem será está imagem?
Serei eu.

Imagem feia destorcida, 
Reflexo do meu sentir.
Tu, minha vida perdida ,
Que me fizeste existir.

Que demónio vejo eu,
Á beira rio?
Reflectido na água calma,
Apenas movida pelo sopro tremulo do vento.

Que demónio vejo eu,
Á beira rio?
Serei eu?

De meu pensar destorcido,
Meu existir suicidei
Fiquei por ti adormecido,
E não acordei.

Que demónio vejo eu
À beira rio?
Será um anjo, será Deus
Ou apenas eu

A distância que me afasta de ti
É a minha imaginação
Pois estás sempre presente em mim,
Mas não és imaginação.

Estás sempre longe
Perto
Por ti sou monge
Vives cá dentro.

Mas se tu para mim não existes
Também não existo eu
Sou então Deus,
Um anjo,
Por não existir, amo-te.

Que demónio vejo eu
À beira rio?
Serei eu?...

Sebastião

Sebastião... Envolto em nevoeiro atravesso este rio, sem referências mas não me perco, tenho o sentir por ti para me guiar. Farol intocável iluminas o meu navegar até sem te ter, guias o viver e ofuscas o meu existir.

Tu

Ao sair para o vazio do Mundo, levo o meu vazio cheio de ti para me aconchegar.
O teu existir bombeia vida ao meu acordar e da-me energia para encher o meu.
Ao sair levo-te comigo no respirar, fazes me existir com razão és a minha paixão.

Enlatado

Enlatado, preso num pedaço de lata, preso a nada e preso a tudo. 
Enjaulado, livre da lata preso a jaula.
Livre, livre de tudo, preso a ti, vida.
Enterrado.
Preso a nada, livre de tudo, ligado a tudo, sendo nada.

Sólido

Sólido como uma pequena gota de chuva, que ao cair num pedaço de ferro gasto pelo tempo, ganha a cor acastanhada desse mesmo desgaste e escorre por todo o comprimento desse ferro, como se fosse a sua vida até cair no chão e voltar a ser tudo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O HOMEM LIXO

A luz é pouca, quase não existe.
O silêncio, imenso, deixa-me surdo.
Não posso falar,
Ninguém me ouve; sou o mudo.
O chão frio, sinto,
Na cova da vida, junto valeta do Mundo.
Durmo na cama do lixo,
Num sofá imundo
No almoço do tempo,
Tenho o tempo como fome.
Sou o porco imundo que não come.
Sou a carne que não se vê,
Mas apesar de tudo existo.
Sou o Homem Lixo!

E tu……?

O conto reza


 
 
O conto que sobre mim contam, não é um conto.
Mas sim uma reza.
Pois apesar de presente já não posso ouvir.
O tom de voz que usam é triste e melancólico.
As frases são húmidas e as palavras tremidas, quase gagas.
O conto, esse que também é uma reza.
É como todos os contos, um exagero da realidade.
No qual eu sou o super herói, que nunca fui enquanto vivo.!! 

domingo, 4 de novembro de 2012

NUM DESERTO CHAMADO EXISTÊNCIA

No deserto que é a sua existência;
Vivem o desespero do dia a dia ,
Treinam a sua vivência,
Sem qualquer filosofia.
 
Pedaços de carne plantam,
Por não terem de comer;
As unhas dos pés arrancam,
Para a dor, poderem esquecer.
 
A tábua que trazem no corpo
É o tronco disfarçado;
Os lamentos que guardam, num copo,
São amor apagado.
 
No caminho que percorrem;
Os buracos, deles se escondem,
Neles caiem e morrem;
Ou então deles fogem.
 
Quando nos buracos caiem,
Dentro deles habitam.
De lá já não saem,
A não ser quando levitam.
 
Suas mãos são coutos,
Os seus pés são calos,
Seus cabelos folhas mortas
E os seus dentes talos.
 
A luz dentro de sua cova,
É a água do dia;
É rara como a chuva
Que no deserto caía.
 
Os seus ossos estavam secos,
Até que em pó se transformaram.
Seus pensamentos são apenas becos,
Pois as suas memórias se apagaram.
 
Apagaram a sua vontade,
Numa cama estão estendidos.
Fogem da verdade,
E de existir estão esquecidos.
 
Esquecidos o vento,
Lembrados como a água.
Esquecidos como um morto,
Fechados em sua magoa.
 
São apenas homens, como todos os cães, que habitam esta esfera de espuma.
São apenas deuses que sopram aos ouvidos das nuvens, que choram de os ouvir.
Choro que é a chuva, lamento por tal desastre. A tua existência é uma arte, que não compreendes, mas insistes em explicar;……….. Homem!

Qual folha de papel

Ao fundo habito o ar, o vazio que me acompanha faz-me viajar.

Acompanhado pelo silêncio viajo deitado num ferro mole, rijo como o corpo que visto. A luz aquece-me quando fecho os olhos, que já não consigo abrir, recordo o ontem porque o amanhã não consigo sonhar.
A pequena sombra que por mim passou fez nevar o meu coração, congelado aquece a gaveta onde me encontro arquivado. Qual folha de papel num ficheiro esquecido, aguardo ser lembrado. Danço deitado numa cama prateada, tipo bandeja, enquanto espero ser servido à mesa do Rei, como prato principal.
A incógnita incerteza de quem sou cresce na dúvida de quem virei a ser, algo mais, que a etiqueta que tenho pendurada no dedo grande do meu pé esquerdo; espero!
As horas que aqui passei são minutos inexistentes, o tempo para mim não passa…
Do outro lado do cofre onde me encontro guardado, a azafama, estática, do médico legista de serviço, acompanhada das intermitentes lâmpadas de uma pequena árvore de Natal, fazem dançar um barroco boneco, de péssimo mau gosto, que se encontra do outro lado do hospital, junto a portaria. A música, mono fónica, que o pequeno e barbudo boneco transmite, faz me tremer a pele seca e congelada, aquecendo com um calor acolhedor a ferrugem da inoxidável cama onde hoje viajo.
Hoje, hoje todos de mim se lembram, no pedaço de peru que levam à boca ou então na suculenta fatia de Bolo-rei que agora mastigam. Existo dentro de cada prenda, sou a fita dourada ou papel rasgado, sou o Porto, o cálice o sonho e azevia, sou a filhó de ferrugem deitada na travessa de inox. Sou apenas a etiqueta que aguarda saber o seu nome, aguarda ser lembrada neste dia em que não foi esquecida.
A tinta que em meu corpo desliza pertence a uma pena ressequida, o nome que esta escreve não se vê, não existe. Tento me levantar para ler os riscos invisíveis que escreveram, tento acordar, tento me lembrar antes de me esquecer. Tento que te lembres de quem sou, tu que não me vieste procurar e não me conseguiste descobrir.
A permanência abstracta de meu pesado corpo, apenas coberto por um vestido negro, sem mangas nem gola, permite-me passear em redor de tudo o que me rodeia; nada.
A claridade aqui presente ofusca-me os sentidos, mas mantém-me cego. Deixo-me sentir o frio que evita a minha putrefacção. A palha que em mim arde iguala o sangue seco que em mim deixou de correr. Como um espantalho moribundo, coberto por uma roupa velha e gasta pela vida, tento de novo levantar-me, abrir os braços e esperar o abraço dos corvos. Ao Habitar esta seara seca e enegrecida pela morte do Sol, acolho todos os pássaros que aqui se alimentam, servindo de poleiro. Planície com flores de pedra onde o chão se alimenta, os meus pés aquece e meu corpo sustenta. Esta vida de espantalho enriquece-me, enquanto durmo o sono gélido de uma bela adormecida que nunca vai acordar.

Doença perfeita; Sã!

No monte mole, tudo escorre enquanto dorme.
Anémonas de algodão correm atrás de seus viscosos filhos; dementes!
Durante a luz, quando o sol derrete, a esponja ausente canta.
Todos ouvem, todos acompanham o seu cantar.
Quando a luz acaba o monte acorda; pára de escorrer.
O calor do fim da luz solidifica os, gelatinosos, corpos dos habitantes do monte mole.
Durante esta nova claridade tudo brilha; cintila!
Existe!
No monte mole de papel tudo é diferente; distante!
Para sempre!
O rio de lama, queimada, alimenta toda a manada; pastor! Enquanto pequenos gnomos de esferovite brincam nas suas margens. Leito!
Perfeito?!
Na monda, ceifeira cortam a cabeça à morte; sorte! Pedras, bebes, saltitam na mente nómada de um viajante; louco!
No monte o sol volta a derreter e durante a luz;
Tudo escorre enquanto dorme! Cintila! Existe! Distante! Para sempre! Pastor! Leito! Perfeito! Louco!?

 

No átrio desta bela casa

No átrio desta bela casa
Na janela deste edifício
Ao som desta reza
Na grandeza de um prenúncio.
 
À luz deste vitral,
À sombra desta cruz
Escondemos a nossa moral
Do pecado que tanto nos seduz.

Nas paginas deste livro,
Nas ruas deste mundo,
Mantemo-nos ao escuro,
Escondemo-nos bem fundo.

Nas teclas deste órgão,
Nas balas desta pistola
Matamos o coração,
Por uma simples esmola

No vinho deste gral
Na forma deste espirito
Uma distância abismal
Na verdade deste mito.

Na voz deste pastor
Na pastagem destas ovelhas
Com o rebanho do lobo caçador
As perdas são tamanhas.

Nas letras desta canção
A união de um irmão
Mas com mais de uma canção,
Separa-se a união

Na vida destas almas
Na morte destes corpos
Na verdade são chamas,
A nossa vida depois de mortos.

Não

… Por dentro sinto o teu chorar.
Ao olhar para ti não te vejo
Mas ouço o teu soluçar, que é o meu.
Sem te ver quase te toco,
Estás perto sem aqui estar.
Ao sentir o teu existir em meu peito,
Tenho de te tocar ou ao menos ver
Com delicadeza é isso que tento fazer.
Retiro de meu peito o coração que não é meu,
Ao abri-lo vejo o meu desejo,
Vejo te a ti
Vejo a alma que perdi.
Respiro tudo o que não esqueci
Gravo em meus olhos a fotografia do passado.
E volto a guardar o coração que é teu,
Mas trago no peito.

Obrigado por me o emprestares…